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CAPA ESPECIAL

Camila Camargo

Entre o teatro, o streaming e o cinema, ela prova que dar vida a personagens tão diferentes entre si não é sorte, é ofício

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Créditos:

Tem atriz que escolhe um caminho e segue nele a vida inteira. Camilla Camargo escolheu todos. Em poucos meses, ela viveu a boêmia Marina em "Aqui Jazz" e a clássica Clarice de "Dois Patrões", version contemporânea de Goldoni, sem deixar o fio da meada se perder entre uma e outra. Some a isso o mistério de "Pacto Maldito", o suspense de "Caipora" ao lado de Kayky Britto, a nova série do Disney+ com roteiro assinado por José Júnior, do AfroReggae, e fica claro que estamos falando de uma artista que decidiu não escolher entre os gêneros, mas transitar por todos com a mesma entrega. Nascida em Goiânia, formada em Rádio e TV pela FAAP e lapidada nos palcos desde os oito anos de idade, Camilla construiu uma carreira de mais de 20 produções teatrais e passagens marcantes pela Globo, SBT, Netflix e Disney+.

Nesta entrevista para a YOUR Magazine, ela fala sobre o peso e o orgulho de carregar o sobrenome Camargo, sobre como equilibrar filhos, marido e uma agenda que não para, e sobre os personagens que, de alguma forma, continuam vivendo dentro dela mesmo depois que as luzes se apagam.

Você começou como VJ e apresentadora antes de virar atriz de peso em teatro, cinema e streaming. Olhando pra trás, em que momento você sentiu que a atriz tinha realmente tomado a frente da carreira?

Na verdade, a atuação sempre veio primeiro. Fiz meu primeiro curso de teatro aos oito anos de idade e, desde então, nunca deixei de estudar. Foi ainda na faculdade que decidi me profissionalizar e investir de verdade nessa carreira. O curso de apresentação surgiu depois, muito por incentivo da minha irmã, que dizia que eu levava jeito para me comunicar. Como eu sempre gostei de aprender e acredito que todo conhecimento acrescenta, encarei aquilo como um complemento à minha formação artística. Foi uma experiência maravilhosa, que me trouxe muita segurança diante das câmeras e me ensinou muito sobre comunicação. Mas a atuação sempre foi o meu foco e o que mais amo. Olhando para trás, percebo que todas essas experiências caminharam juntas e contribuíram para que eu me tornasse uma artista mais completa, mas foi interpretando personagens que eu encontrei o meu verdadeiro lugar.

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Você emenda a Marina de “Aqui Jazz” com a Clarice de “Dois Patrões” quase sem intervalo. Como o corpo e a cabeça dão conta dessa virada tão rápida, de uma diva em transformação pra commedia dell'arte?

 

É uma delícia e um desafio ao mesmo tempo. Eu gosto muito desse contraste porque ele me obriga a não entrar no automático. A Marina tem um universo completamente diferente da Clarice, tanto na energia quanto no ritmo e na forma de existir em cena. Na verdade, essa não é a primeira vez que vivo esse tipo de desafio. Já aconteceu de eu interpretar três personagens completamente diferentes ao mesmo tempo, em projetos distintos. Isso exige muita disciplina, concentração e, principalmente, um processo muito consistente de construção. É preciso entender profundamente o momento de cada personagem, suas intenções, sua forma de pensar, de falar e de se movimentar, para que uma não invada o universo da outra. Acho que o segredo é estudar muito, confiar no processo e respeitar o tempo de cada personagem. Quando entro no universo de uma, a outra fica do lado de fora esperando a vez dela.

"Nenhuma carreira vale a nossa saúde mental. Gostaria que aquela menina soubesse que ela já era suficiente exatamente como era."

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Carregar o sobrenome Camargo, num país onde isso vem carregado de expectativa e exposição, pesou na hora de escolher os primeiros papéis? Isso ainda entra na sua cabeça hoje, com uma carreira já consolidada?

Bem no começo da carreira, eu refletia se a notoriedade da família impactaria na expectativa ao redor do meu trabalho, imaginava que, mesmo em áreas diferentes, mas dentro do universo artístico, que algumas pessoas poderiam fazer deduções antes mesmo de conhecerem meu trabalho. Mas, já pouco tempo depois, entendi que deveria focar as energias em seguir estudando, trabalhando e construindo a minha própria trajetória. Tenho muito orgulho da minha família, mas também sinto que conquistei um espaço que é fruto da minha caminhada e das escolhas que fiz ao longo da carreira.

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Com “Pacto Maldito”, “A Caipora” e “Serventia da Casa” ao mesmo tempo, dá pra dizer que você está namorando o gênero fantástico ultimamente? O que te atrai nesse universo de mistério e sobrenatural?

 

Acho que sim, (risos). É curioso porque aconteceu de forma espontânea. O fantástico permite brincar muito com a imaginação e leva o ator para lugares emocionais muito intensos. Gosto desse universo porque ele costuma falar sobre sentimentos extremamente humanos através de histórias que fogem da realidade. No fundo, mesmo quando existe um elemento sobrenatural, o que mais me interessa continua sendo entender quem é aquela personagem, quais são seus medos, suas dores e seus desejos. Trazer o máximo de realidade independente da personagem. A primeira pessoa que precisa acreditar completamente naquela história, independente de como ela seja, sou eu, senão ninguém vai acreditar quando assistir.

"A vida acontece ali, nas pausas, no silêncio, nas conversas de verdade. As redes são uma ferramenta importante, mas não podem substituir a experiência de viver."

Existe algum critério por trás dessas escolhas tão diversas, ou é mais um instinto de fugir de qualquer coisa parecida com o que você já fez?

Na verdade, acho que essas escolhas aconteceram de forma muito orgânica. Claro que, como atriz, eu sempre fico animada quando aparece uma personagem que me desafia e me tira da zona de conforto, mas nem sempre é assim, e faz parte da profissão. O meu papel é chegar preparada para dar vida à personagem da forma mais verdadeira possível, seja ela muito diferente de tudo o que já fiz ou até com algumas características parecidas com outros trabalhos. É aí que entram o estudo, a técnica e tudo o que construí ao longo da minha carreira. Fico muito feliz por, neste momento, estar vivendo personagens tão distintos entre si. Acho que isso mostra que diretores e produtores enxergam em mim a possibilidade de transitar por universos diferentes, e esse talvez seja um dos maiores reconhecimentos que uma atriz pode receber.

Com uma agenda que emenda teatro, streaming e cinema quase sem respiro, sobra espaço pra vida pessoal? Como você organiza esse equilíbrio hoje?

Hoje eu entendi que equilíbrio não é ter tudo dividido perfeitamente, porque isso simplesmente não existe. Existem fases em que o trabalho exige mais e outras em que consigo estar mais presente com a minha família. O importante é que, quando estou com meus filhos e com meu marido, eu procuro realmente estar ali, presente de verdade. Aprendi a valorizar muito mais a qualidade do tempo do que a quantidade. E também entendi que cuidar da minha saúde física e emocional não é um luxo, é uma necessidade para conseguir fazer tudo isso.

Depois de tantos personagens tão diferentes entre si, tem algum que ficou grudado em você, que você carrega um pouco pra fora do palco ou das gravações?

 

Eu acho que todo personagem deixa alguma coisa. Alguns me ensinaram a ser mais forte, outros me fizeram enxergar o mundo por perspectivas completamente diferentes da minha. É impossível passar meses vivendo uma personagem e sair exatamente igual. Mas eu gosto de pensar que o que fica não são os trejeitos ou a forma de falar. O que fica são os aprendizados, a empatia e a oportunidade de entender um pouco mais sobre as pessoas e sobre mim mesma. Talvez essa seja a parte mais bonita de ser atriz.

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