
CAPA ESPECIAL
Carol Nakamura
A força de uma mulher nikkei no Brasil

Créditos: Fotos Guilerme Lima @guilhermelima
Produção executiva e styling Samantha Szczerb @samantha_szczerb
Beleza Laís Régia @laisregiaa
Look Powerlook @powerlook_
Ela chegou ao entretenimento brasileiro pela porta da dança, corpo presente, técnica afiada, presença que não pede licença. Mas Carol Nakamura nunca coube num rótulo. Aos poucos, e com a insistência silenciosa de quem sabe o que carrega, foi ampliando o espaço que ocupa: atriz, ativista, mulher nikkei que se tornou referência para uma geração que precisava ver alguém como ela ocupando as telas.
“A vida me ensinou que não é sobre ocupar espaço, é sobre transformar o espaço que a gente ocupa.”
Em conversa exclusiva com a YOUR, Carol falou sobre os bastidores da própria vida, as cirurgias que a fizeram rever prioridades, os projetos que nascem no coração antes de chegar ao papel, e a Carol que poucos conhecem: aquela que, quando a vida pesa, coloca uma música para tocar e vai buscar seus cachorros.
Seu trabalho com crianças em situação de vulnerabilidade é uma das faces mais bonitas da sua história. O que essa conexão com elas ensina a você que nenhum papel, palco ou câmera poderia?
Eu sempre gostei muito de proporcionar oportunidade, de dar start na vida das pessoas. Porque a pequena ajuda que ofereci, e digo pequena porque eu gostaria de ter feito mais, talvez tenha sido a ajuda que eu queria ter tido quando mais nova. Graças a Deus eu tive uma excelente educação, uma ótima família e todas as oportunidades. Demorou um pouquinho, mas demora para todo mundo, e eu consegui porque tive base. Essas pessoas, normalmente, não têm.
Quando eu comecei esses projetos, na verdade eu estava passando por um momento muito delicado. Tinha saído de seis cirurgias e senti que havia alguma razão para ter tido essa oportunidade de vida novamente. Então comecei com a Assistência Liga e fui tentando fazer coisas maiores. Só que o problema é enorme para uma pessoa só, ainda mais jovem, sem experiência, como eu era na época. A gente ajuda e às vezes não sabe como ajudar. Hoje eu aprendi muito, me conscientizei muito, e acho que consigo ajudar de uma maneira mais correta. Mas o que eu acho mais gratificante é ensinar a pescar. Não dar o peixe, mas ensinar. Para que essa criança, esse adolescente, esse adulto tenha uma inspiração, uma oportunidade, e consiga realizar seus sonhos.

Por trás de toda a visibilidade, existe uma Carol que poucos conhecem. O que te tira do equilíbrio, e o que te devolve ao centro quando a vida pesa?
Existe uma Carol que, acho, até quem está por trás junto comigo não conhece tão bem assim. Quando a vida pesa, a música me salva, a dança me salva. A minha família me acolhe, me protege e faz com que eu me sinta segura. O amor, de uma forma geral.
Os meus cachorros. Saber que eu tenho para onde voltar, que tenho um lugar seguro para ser amada, independente de dar certo ou não, independente de estar bem ou não. Quando a vida pesa, eu me reconecto com o que é meu de verdade: os meus cachorros, a minha vida, tudo aquilo que eu construí, e a minha família, principalmente. A música faz parte disso, porque eu acho que ela deixa tudo mais bonito. Ter uma trilha sonora para cada momento faz parte de quem eu sou.

Ser uma mulher nikkei no topo do entretenimento brasileiro carrega um peso simbólico imenso. Você sente essa responsabilidade como um presente ou às vezes como um fardo?
Fiquei até arrepiada com essa pergunta. Ser asiática me proporcionou muitas coisas boas, mas trouxe também muitas dificuldades. O mercado está entendendo agora que o Brasil é feito de miscigenação — de misturas — e que não necessariamente a gente precisa, por ter o olho puxado, se encaixar num único núcleo. A minha realidade nunca foi essa: minha mãe é brasileira, meu pai é filho de japonês, eu sou neta de japonês por parte de pai.
Até conseguir um papel significativo, os que vinham eram mais pontuais, menores, com pouca constância, papéis para asiáticas, no sentido mais limitado da palavra. Quando finalmente consegui um papel totalmente comum, independente de etnia, eu quis fazer por elas. Quis, até, por isso. Em Arcanjo Renegado, eu venho de uma continuidade da história da Dani Suzuki, uma mulher excelente, super consciente, que fez um trabalho lindo. Então eu já carregava essa responsabilidade de continuar uma história através da dela.
É impossível ter uma oportunidade sabendo que tantas outras pessoas não tiveram, e não ser grata, não querer dar o seu melhor. É óbvio que a falta de experiência traz inseguranças, mas o que mais me motivava era poder ser orgulho para a minha geração, para as jovens asiáticas. Poder dizer: olha, é possível. Eu estou aqui. Se eu estou, você também consegue. Então é um fardo e um presente ao mesmo tempo. Sempre foi. Existem dois lados para tudo na vida, e ser asiática não seria diferente.

Existe um projeto que ainda mora só dentro de você — algo que ainda não foi dito em entrevista nenhuma e que, se tudo der certo, vai ser a próxima grande virada da sua história?
Eu costumo dizer que sou uma caixinha de surpresas. Tenho uma mente muito criativa, mas nem tudo que eu penso eu consigo executar ou esclarecer com tanta sabedoria, quando eu vejo, depois de anos, alguém já fez. E eu falo: era uma boa ideia. Acabo procrastinando alguns projetos por não saber exatamente como fazê-los.
Em relação à minha carreira como atriz, eu quero papéis desafiadores. Quero ser totalmente diferente do que sou. Vim do lugar da dança, de um entretenimento mais popular, sou uma asiática com corpo, isso me coloca numa certa classificação, num certo rótulo brasileiro. Mas quando a gente tem a oportunidade de ser outra pessoa, fisicamente, mentalmente, interpretando, isso é um grande presente. É muito desafiador, mas é um presente.
Pensando num plano B, porque a vida do artista é de altos e baixos, eu penso muito em ter algo relacionado a cachorros, faço resgates e é uma conexão genuína que tenho com os animais. Penso num karaokê, mas totalmente diferente de tudo que já foi visto. Penso em projetos de arquitetura, de decoração, de dança. Tenho até um sonho de criar um lugar no verde, aqui no Rio, para crianças, porque quando os pais querem levar os filhos para a natureza, para ver os animais, precisam sair da cidade. E a gente tem tanto verde, tanta coisa para aproveitar, sem precisar ir longe. São muitos projetos. Mas hoje, estou 100% focada na minha carreira como atriz. Primeiro as coisas.

