ADRIANA GARAMBONE AOS 50+: AUTORIDADE SOBRE OS PRÓPRIOS DESEJOS
Aos 56 anos e com 35 de carreira, Adriana Garambone vive uma fase que ela mesma descreve como de muita autenticidade. Depois de anos de televisão e de uma relação intensa com o teatro musical, a atriz retorna ao teatro da palavra em Uma Vida de Amizade, peça que idealizou ao lado de Sílvia Pfeiffer e Helena Fernandes e que já soma sessões lotadas no Rio de Janeiro, além de uma segunda temporada internacional. Nesta entrevista, Adriana fala sobre os aprendizados de mais de três décadas de ofício, o que mudou no seu conceito de sucesso, os desafios de permanecer em uma profissão ligada à imagem e por que, para ela, amadurecer tem sido muito mais interessante do que disseram que seria.

O que a Adriana de hoje sabe sobre a profissão que a Adriana do início da carreira ainda não sabia?
Tudo. Quando eu comecei, eu não sabia absolutamente nada sobre essa carreira. Eu só tinha um sonho e uma vontade enorme de ser atriz.
E, nesses 35 anos, fui aprendendo tudo. Fui descobrindo os meus mecanismos para chegar a um personagem, entendendo como eu trabalho, o que funciona para mim. Fiz muita aula de interpretação, experimentei técnicas e formas diferentes de atuar, fiz muita aula de canto, li muito, assisti a muita peça, vi muito teatro. Trabalhei com pessoas muito diferentes, conheci muita gente e fui aprendendo com cada encontro.
Essa profissão também se aprende vivendo. Cada personagem te ensina alguma coisa, cada diretor te apresenta um caminho, cada colega acrescenta alguma coisa ao seu repertório.
Então, quando penso no que a Adriana de hoje sabe que aquela lá de trás não sabia, a resposta é realmente: tudo.

Qual foi o maior desafio profissional que você enfrentou até aqui e que pouca gente conhece?
Acho que um dos maiores desafios foi conseguir existir profissionalmente no começo da carreira. Depois os musicais foram trabalhos bastante desafiadores, por exigirem um preparo vocal e físico quase atlético dos atores. E agora, produzindo teatro pela primeira vez, é um momento bastante desafiador. Apesar do grande sucesso com a peça Uma Vida de Amizade, produzir é uma experiência nova, que traz muitos desafios.
Em algum momento da carreira você pensou em desistir ou seguir por outro caminho? O que fez você continuar?
Não, nunca pensei em desistir.

Existe uma diferença entre o sucesso que você imaginava quando começou e o significado que ele tem para você atualmente?
Totalmente. Quando a gente é muito jovem, sucesso está muito associado à visibilidade: fazer um grande papel, ser reconhecida, estar na televisão, ser chamada para trabalhar. Hoje meu conceito de sucesso mudou bastante. Sucesso, para mim, é ter autonomia. É poder escolher projetos que façam sentido, estar cercada de pessoas que admiro, fazer um trabalho do qual eu tenha orgulho e continuar tendo prazer na profissão.
5. A exposição faz parte da vida de quem trabalha na televisão. O que você escolhe preservar da sua vida pessoal e por quê?
Eu preservo bastante a imagem do meu filho e a minha intimidade. Hoje em dia a exposição nas redes é muito grande, mas eu não me sinto confortável me expondo demais.
Tem uma parte da minha vida que eu gosto que continue sendo só minha.

Qual foi o trabalho que mais abriu portas para você profissionalmente e mudou os rumos da sua carreira?
É muito difícil escolher um só, porque alguns trabalhos foram determinantes em momentos diferentes. Mas a televisão, sem dúvida, mudou a dimensão da minha carreira. A Globo me deu uma projeção muito grande no início, e depois vieram os 17 anos na Record, que representam uma parte enorme da minha história profissional. Foram muitos personagens, muitas novelas.
Ao mesmo tempo, o teatro musical abriu uma outra porta para mim. Chicago, Gypsy, Pippin, Os Saltimbancos Trapalhões... foram trabalhos que me exigiram como atriz de uma maneira completamente diferente. Então acho que minha carreira foi sendo construída por essas portas que foram se abrindo e me levando para lugares que eu nem imaginava quando comecei.
Durante a sua carreira, você teve inspirações que moldaram a profissional que você é hoje?
Muitas. E elas não vieram apenas de grandes nomes que eu admirava de longe. Eu aprendi muito observando as pessoas com quem trabalhei: atores, diretores, autores, técnicos. O nosso ofício é muito feito de observação.
Sempre me impressionaram os atores que conseguem atravessar décadas mantendo curiosidade, disciplina e disponibilidade. Porque talento é fundamental, claro, mas uma carreira longa também exige muita disciplina. E talvez hoje eu admire ainda mais quem consegue continuar apaixonado pelo ofício depois de muitos anos. Eu quero ser essa atriz.

Como você enxerga a chegada do streaming e das novas plataformas? Ampliaram oportunidades ou trouxeram novos desafios?
As duas coisas. Ampliaram muito as possibilidades de produção, de formatos e de circulação das obras. Hoje um trabalho brasileiro pode chegar a pessoas do mundo inteiro de uma maneira que era muito mais difícil quando eu comecei.
Por outro lado, o mercado também ficou mais pulverizado e mais veloz. Acabou aquela ideia de que necessariamente você teria um vínculo longo com uma emissora e uma sequência de trabalhos garantida. Para o ator isso traz liberdade, mas traz também instabilidade.
Acho que estamos aprendendo a trabalhar dentro desse novo mercado.
O que ainda falta para o mercado brasileiro valorizar melhor seus artistas?
Talvez falte entender que cultura não é luxo. Cultura é trabalho, é indústria, gera emprego, movimenta a economia e também conta quem nós somos.
O Brasil tem atores, autores, diretores, técnicos e criadores extraordinários. Temos uma capacidade enorme de produzir histórias, mesmo muitas vezes com condições difíceis. Acho que valorizar o artista passa também por criar condições para que ele consiga viver do seu trabalho, ter continuidade e envelhecer profissionalmente sem desaparecer do mercado.
E essa última questão me toca especialmente. A gente precisa contar histórias de todas as idades. A vida não termina aos 40, e os personagens também não deveriam terminar.
Você acredita que um ator precisa estar constantemente se reinventando para permanecer no mercado? Como faz isso na prática?
Completamente. Mas hoje eu entendo reinvenção de uma maneira diferente. Não é virar outra pessoa para caber no que o mercado está pedindo. É continuar se movimentando.
Eu fiz televisão durante muitos anos, fiz muito teatro musical e agora estou vivendo um retorno ao teatro da palavra. Também comecei a produzir e idealizar meus próprios projetos e descobri nas redes sociais um espaço onde posso falar diretamente com as pessoas e colocar minhas ideias.
Então, para mim, reinvenção tem muito mais a ver com não ficar esperando alguém decidir qual será o seu próximo passo.

Qual foi o maior aprendizado que você recebeu de um diretor, colega de cena ou profissional com quem trabalhou?
Talvez o maior aprendizado não tenha vindo de uma pessoa específica, mas da convivência: escutar.
Atuar não é chegar com tudo decidido. É estar disponível para o outro, para o diretor, para aquilo que acontece naquele momento. E isso serve muito para a vida também.
Acho que essa disponibilidade é uma das coisas mais bonitas que a profissão me ensinou.
Existe algum trabalho seu que, quando você revisita, desperta uma sensação diferente da que tinha na época?
Sim, vários. Porque quando eu revejo um trabalho antigo, não vejo apenas a personagem. Eu vejo a pessoa que eu era naquele momento. Lembro das circunstâncias da época.
Mas eu tenho muita resistência em assistir trabalhos antigos, sinto quase um constrangimento. É muito estranho, eu evito.
E sempre acho que hoje eu faria muito melhor.
A crítica e a opinião do público já fizeram você repensar alguma decisão profissional?
Não. Claro que a opinião do público importa. Teatro, televisão, cinema, tudo o que a gente faz é para chegar a alguém. E a crítica também pode trazer um olhar interessante sobre o nosso trabalho.
Mas eu nunca sofri críticas públicas ruins, meus trabalhos sempre foram elogiados, então não sei o que é passar por uma situação como essa.

Você sente que o público conhece realmente a Adriana Garambone?
Hoje conhece muito mais do que conhecia antes das redes sociais. Durante muitos anos, o público conhecia basicamente meus personagens e aquilo que aparecia em entrevistas. Hoje eu falo diretamente com as pessoas. Elas conhecem minhas opiniões, meu humor, minhas inquietações, algumas das minhas contradições.
Mas não conhecem tudo, ainda bem.
Ao longo da sua trajetória, o que foi mais difícil: conquistar espaço ou permanecer nele?
Permanecer. Sem dúvida.
Conquistar espaço é muito difícil, mas permanecer durante 35 anos exige que você atravesse muitas mudanças: do mercado, da televisão, do seu corpo, da sua idade.
Envelhecer dentro de uma profissão extremamente ligada à imagem não é fácil. Eu cheguei aos 50+ querendo continuar sendo protagonista da minha história, e não aceitando a ideia de que existe uma idade em que uma mulher precisa sair de cena.
Então permanecer, para mim, não significa simplesmente continuar trabalhando. Significa continuar tendo desejo, voz, curiosidade e espaço.
O que ainda te dá frio na barriga depois de tantos anos trabalhando como atriz?
O teatro.
É impressionante porque você pode ter feito aquilo centenas de vezes e, antes de entrar em cena, existe aquele frio na barriga. A cortina vai abrir e não existe "corta, vamos fazer de novo".
E eu adoro isso.

Como é estar nos palcos com Uma Vida de Amizade e o que o teatro proporciona de diferente de um estúdio?
O teatro tem uma coisa que nenhuma outra linguagem consegue reproduzir: acontece ali, naquele instante, entre você e o público.
Em Uma Vida de Amizade, isso é muito forte, a plateia participa o tempo inteiro. Você sente a risada, o silêncio, percebe quando uma frase bate de uma maneira diferente. Cada apresentação é diferente da anterior.
E essa peça tem ainda um significado muito especial para mim porque é um projeto que nasceu de um desejo enorme de voltar ao palco. Eu, Sílvia Pfeiffer e Helena Fernandes idealizamos esse trabalho, tivemos a felicidade de ter um autor que escreve brilhantemente para mulheres, Gustavo Pinheiro, e um excelente diretor, Fernando Philbert, que teve a sensibilidade de encontrar o que era mais verdadeiro em nós. Então não estou apenas interpretando uma personagem, estou vivendo no palco o que um dia foi sonho. Isso tem um sabor completamente diferente.
Quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória no teatro e existe algum projeto que ainda sonha realizar?
O teatro musical ocupa um lugar enorme na minha história. Fiz espetáculos muito importantes para mim e passei anos mergulhada nesse universo.
Chicago, com certeza, foi um espetáculo muito especial na minha trajetória. Todos os musicais que fiz com Charles Moeller e Cláudio Botelho, Gypsy, Como Vencer na Vida sem Fazer Força, os primeiros musicais que fiz com Wolf Maya, também foram. O teatro é sempre muito marcante, fica difícil escolher.
Quanto ao que ainda quero fazer, eu espero que tenha muita coisa. Não quero chegar a um momento da vida em que eu tenha uma lista encerrada de sonhos. Quero continuar sendo surpreendida por personagens que eu ainda nem sei que existem.
Se pudesse escolher três momentos da carreira para guardar como um álbum de memórias, quais seriam?
Eu escolheria Salsa e Merengue, minha primeira novela na Globo, um momento do começo, quando percebi pela primeira vez que o sonho estava realmente virando profissão.
Guardaria Chicago, um momento do teatro musical, porque foi uma fase muito importante e muito transformadora da minha carreira.
E guardaria este momento que estou vivendo agora com Uma Vida de Amizade. Porque existe algo muito bonito em chegar aos 35 anos de carreira e perceber que ainda existem primeiras vezes.
Existe algum projeto profissional que você considera um sonho ainda não realizado?
Existem muitos. E acho ótimo que existam.
Hoje, mais do que sonhar com um personagem específico, eu sonho com bons encontros. Grandes textos, um diretor que me provoque, colegas que me estimulem, uma personagem que me dê medo de fazer.
E quero cada vez mais desenvolver projetos meus. Cheguei numa fase em que quero também criar aquilo que gostaria de interpretar.
Se esta capa pudesse registrar não apenas a atriz, mas a mulher por trás de décadas de carreira, qual história você gostaria que o público conhecesse?
Talvez a história de uma mulher que está descobrindo que amadurecer pode ser muito mais interessante do que disseram que seria.
Durante muito tempo nós, mulheres, fomos ensinadas a temer o envelhecimento. Como se depois de determinada idade começasse uma espécie de diminuição: menos beleza, menos desejo, menos trabalho, menos possibilidades.
Então, essa capa vem em boa hora para registrar uma mulher que não está encerrando ciclos porque está envelhecendo.
Está começando outros.
Se pudesse se definir em uma frase, qual seria?
"Sou uma mulher em movimento e ainda muito interessada no que vem pela frente."










