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POP, ROCK E INDIE: O GUARDA-ROUPA SEM REGRA FIXA DE CHADY

há 10 horas
4 min de leitura


Antes mesmo de qualquer acorde tocar, já existe uma imagem. Foi assim que Chady abriu o Rock in Rio 2026 no Palco Supernova, espaço do festival dedicado a revelar novos talentos, e também assim que o cantor e compositor carioca pensa sua carreira desde o início. Para ele, a construção de um artista não se resume ao som que sai do microfone. Ela passa, com a mesma importância, pelo que se veste antes de cantar a primeira nota.


Chady foi o primeiro nome a pisar naquele palco em 2026, um detalhe que, para quem acompanha de perto o circuito musical brasileiro, carrega um peso simbólico. Abrir um festival do tamanho do Rock in Rio não é só uma questão de horário na grade de programação. É também uma apresentação, no sentido mais literal da palavra, de quem é esse artista e para onde ele quer ir. E Chady decidiu que essa apresentação começaria pela roupa.


A moda como extensão da música

Há uma frase do cantor que resume bem sua filosofia, e vale repeti-la quase na íntegra.

"Eu acho que a moda é uma extensão da música. Antes mesmo de alguém ouvir uma música, existe uma imagem, uma estética, uma primeira impressão. Então gosto de pensar que o jeito que me visto também conversa com aquilo que estou fazendo musicalmente", conta.

A lógica por trás disso não é nova, mas poucos artistas conseguem verbalizá-la com tanta clareza. Antes do streaming, antes das redes sociais, a capa de um disco já cumpria esse papel, era o primeiro contato do ouvinte com o artista, muitas vezes antes mesmo da agulha tocar o vinil. Chady parece entender que, hoje, esse primeiro contato acontece em outro lugar, uma foto no feed, um clipe, um show, mas a função da imagem continua sendo a mesma. Ela anuncia o que vem a seguir.



Sem regra fixa

A sonoridade de Chady transita entre pop, rock e indie, sem se prender a um gênero único. Essa mesma liberdade aparece na forma como ele se veste. Para o cantor, a roupa é uma ferramenta de experimentação, não uma camisa de força estética.

"Eu gosto de poder mudar. Tem dias em que quero uma coisa mais rock, em outros estou mais interessado em uma estética mais simples. Acho que não precisa existir uma regra. A moda também pode acompanhar o momento que você está vivendo", afirma.

É uma visão que soa quase óbvia quando dita em voz alta, mas que exige disciplina para ser sustentada na prática. Afinal, é mais fácil vender uma imagem fixa, um personagem reconhecível de longe, do que pedir ao público que acompanhe as variações de humor de um artista em tempo real. Chady aposta na segunda opção.


Cazuza, Cássia Eller, Lenny Kravitz e uma tradição que vem de longe

As referências de Chady passam por nomes como Cazuza, Cássia Eller e Lenny Kravitz, artistas que, cada um à sua maneira, trataram a imagem como parte inseparável do trabalho musical. Não é coincidência que os três tenham em comum uma estética que mistura rock clássico com uma linguagem mais contemporânea, exatamente a combinação que Chady busca construir.


A relação entre moda e rock, aliás, é uma das mais antigas e mais estudadas da história da música pop. Basta lembrar que David Bowie reinventou a própria carreira ao criar Ziggy Stardust, um alter ego tão definido pelo figurino quanto pelas canções. Ou que o movimento punk, no fim dos anos 1970, usou alfinetes, jaquetas rasgadas e cabelos espetados como manifesto antes mesmo de qualquer letra ser cantada. No Brasil, Cazuza fez algo parecido, a androginia do figurino era parte do discurso, não um acessório dele.


Para Chady, essa tradição não é peso, é ponto de partida. A ideia não é copiar um estilo do passado, mas entender por que ele funcionou e aplicar a mesma lógica ao presente.



Autenticidade antes da estética

Se há uma linha que guia as escolhas do cantor, é a recusa em vestir algo só porque está em alta.

"Eu acho que quando você tenta vestir uma coisa só porque está na moda, isso acaba aparecendo. Para mim, o mais interessante é pegar uma referência e transformar aquilo em alguma coisa que tenha a ver comigo. A roupa precisa conversar com quem eu sou naquele momento", explica.

É uma afirmação que, dita por qualquer pessoa, soaria como lugar-comum. Dita por um artista que acabou de abrir o maior festival de música do país, ganha outro peso. Porque nesse momento específico, sob holofote e câmera, a tentação de vestir a fantasia certa, a que o algoritmo aprova, costuma ser grande. Chady escolheu o caminho mais arriscado, que é parecer com ele mesmo.



Uma identidade que muda sem se perder

Mais do que escolher roupas para ocasiões específicas, Chady entende a moda como parte de uma narrativa maior, a mesma que constrói através das canções. Assim como sua sonoridade transita entre referências sem se fixar em um único gênero, seu estilo também pode variar sem comprometer o que o torna reconhecível.

"Acho legal quando você olha para um artista e consegue perceber que existe uma identidade ali, mesmo quando ele está experimentando coisas diferentes. É isso que eu quero construir também. Não quero ficar preso a uma estética, mas quero que as pessoas reconheçam que aquilo tem a ver comigo", resume.

A estreia no Rock in Rio talvez fique, com o tempo, menos associada a uma data no calendário do festival e mais a um marco nessa construção. O Palco Supernova existe justamente para isso, para dar o primeiro grande microfone a quem ainda está formando sua própria linguagem. Chady usou esse microfone, e o guarda-roupa que o acompanhava, para dizer, sem precisar de uma única palavra cantada, que sabe exatamente quem é.



 
 
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